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Longevidade e resiliência

Aviso: este post é cerca de 1.300 palavras, mais do que o habitual para este blogue. Ponha-se à vontade antes de começar a ler.

Livraria Velhotes fica apenas 15 minutos a pé de onde eu vivo: vire à esquerda no fim da minha rua, passe a casa em ruínas com as cabras no jardim, passe pelo jardim de infância, pelo campo de futebol, estúdio de jujitsu, Águas de Gaia e, pouco antes de chegar à grande escola secundária, a livraria fica à sua esquerda. 

Um dos sócios da livraria, Pedro Carvalho, falou-me sobre a história, o espírito e a prática da livraria. Nesta transcrição editada da entrevista, Pedro fala da sobrevivência financeira, da publicação em Portugal e da relação entre uma livraria e a sua comunidade. 

A fachada da livraria vista do exterior. A montra da livraria tem livros e luzes.

Lawrence: Como poder sobreviver uma livraria independente neste altura da empresas multinacionais e livrarias online?

Pedro: Em Vila Nova de Gaia as livrarias de livros novos e de livros usados foram, com o decorrer do tempo, desaparecendo. 

Vila Nova de Gaia, como já deve ter percebido, é uma das maiores cidades portuguesas em termos de população, mas é um pouco um dormitório do Porto. E o centro do Porto é mais perto do centro de Gaia que algumas das zonas da própria cidade do Porto. O que quer dizer que o centro do Porto tendo várias livrarias e sendo essas livrarias muito sustentadas pela sua tradição, pelo trabalho que fazem, mas também pelo movimento de turistas. Esses livrarias atraem muito as compras das pessoas de Vila Nova de Gaia que gostam de livros.

A Livraria Velhotes foi fundada em 1976. E agora, em rua, fora do shopping, é a única livraria em Gaia. De qualquer das formas, o facto de sermos o único, é o teste da longevidade e da resiliência.

L: Os clientes aqui são mesmo de Gaia?

P: Não só de Gaia.

L: Vêm de mais longe?

P: Os clientes vêm de uma área que vai desde o Porto e a redor do Porto até Vila da Feira (a 30 ou 40 quilómetros daqui). Sendo que muitos procuram pelos conteúdos para crianças e jovens. Nos últimos 15 anos, nós fomos tentando perceber não só aquilo que queríamos de base, mas por onde é que poderíamos ir e o que é que nos podia fazer distinguir. A parte infantil e juvenil em Portugal nos últimos anos teve uma grande transformação. Apareceram muitas pequenas editoras que fazem um trabalho de grande qualidade, quer a nível de texto, mas especialmente a nível da ilustração. Por exemplo Orfeu Negro, Máquina de Voar, e Trinta por uma Linha.

L: Têm clientes que vivem mais perto da loja? E quais são os hábitos de leitura das pessoas em Gaia? 

P: A Livraria Velhotes tenta promover a leitura em Vila Nova de Gaia. E uma das formas é, nós levamos autores às escolas. Nas escolas, nós divulgamos o nome da livraria. Juntamente com as escolas e as bibliotecas escolares, os atividades possam ser feitas com os alunos, no sentido de promover a leitura, eventualmente os tornar leitores ou ajudar a fazê lo. Quando um autor está na escola é um dia especial, os alunos estão focados no encontro com o autor. 

L: E vocês, a livraria, é a ligação entre os autores e as escolas? 

P: Sim, é a ligação. As escolas não têm dinheiro para pagar o autor para ir à escola. Eu não sei como é que acontece em outros países, mas imagino que aconteça que as escolas tenham algum dinheiro para pagar a escritores para se deslocarem à escola, e os autores vão. E isso é que está certo, porque se eles vão, deixam de fazer o que têm para fazer, e dispõem-se a um dia da vida deles para ir a uma escola, isso deve ser retribuído. Mas é que em Portugal isso não existe, porque as escolas não têm dinheiro. 

Como é que nós fazemos? Nós vamos buscar o escritor a casa, levamos lá à escola, e tratamos todas essas despesas, de forma que a escola não tenha nenhuma despesa, mas que possa usufruir de certa forma da mesma actividade que usufrui em outros países. 

L: São retribuídos de que forma?

P: Se os alunos quiserem comprar os livros, sabem que podem encontra os aqui, nesse dia podem estar à venda na escola. Mas é só se quiserem, não há nenhuma obrigação. Se ninguém quiser comprar um livro, não há problema nenhum. Nós fizemos o nosso trabalho.

L: É uma forma de marketing? 

P: É uma forma de marketing, porque faz com que nós fiquemos conhecidos nesse meio, que depois, se alguém quiser comprar esses livros ou outros livros, possa vir à Livraria Velhotes. 

E além disso, somos recompensados em termos de negócio com os manuais escolares. Existe um grande volume de negócio que nós efetuamos nessa altura.  É uma forma de devolver à comunidade, em que estamos integrados, parte desses proveitos materiais, que a comunidade nos dá. É por isso que levamos escritores para as escolas quase só aqui em Vila Nova de Gaia.

L: Pode explicar o que quer dizer quando diz ‘comunidade’?

P: Quando eu digo comunidade, é a comunidade aqui no centro de Vila Nova de Gaia. Essa é a comunidade. Há pessoas que vêm de mais longe, mas vêm à procura de algo específico mas, quando eu digo comunidade, é as pessoas mais próximas que fisicamente vivem mais próximas, que vêm mais à livraria.

As pessoas passam aqui, vêem livros, ficam curiosas e entram e compram e lêem. E isso é uma coisa importante para essa comunidade. As pessoas têm a tendência a entrar, provar os livros e voltar. E é muito importante que cada comunidade, que cada pequena cidade tenha uma livraria

Nós queremos que a comunidade receba algo. Por outro lado, nós estamos a fomentar a própria leitura e apostar nas gerações futuras, de modo que continuem a gostar de livros, que os livros sejam importantes para eles, e sendo, vão comprar livros.

L: E é um sucesso este projeto? 

P: A fórmula é bem sucedida, sim. 

L: Eu pensava que os jovens estavam a ler cada vez menos. 

P: É assim, as crianças até aos 12 anos lêem, porque são muito estimuladas, são estimuladas pelos professores, são estimuladas pela sua própria curiosidade de aprender. Têm a cabeça disponível, fresca, para ouvir histórias, e existem muitos incentivos para que eles leiam. A partir daí, há outras coisas que os interessam mais, como a televisão, a internet, os telemóveis, e outras coisas. Mas é difícil contrariar isso.

Muitos adolescentes procurem e leiam os livros da séries de Netflix que os interessou. Isso acontece muito. Há muitos jovens que vêm à livraria à procura de um livro que é, na qual uma série se baseou, e verem outros livros expostos, dos quais já ouviram falar. 

L: E pode dar um exemplo de uma série baseada num livro? 

P: Thirteen Reasons Why. É uma série americana da Netflix. No início há uma adolescente que se suicida. Ela deixa treze cassetes gravadas, destinadas a treze pessoas, amigos e pessoas que a rodeavam. As treze cassetes dão uma mensagem. Cada um dos capítulos  desenvolve o impacto que essa mensagem causa em toda a história. É um livro particular, sobre questões relacionadas com o bullying. 

L: Os jovens leitores podem procurar estes livros no FNAC ou no El Corte Ingles? 

P: No FNAC e El Corte Inglês o espaço da livraria é gerido como um espaço numa mercearia de um supermercado, ou seja, um livro é publicado este mês e aparece com muita publicidade e em sítios muito visíveis. Passados dois ou três meses, esse livro desaparece e nunca mais aparece.

Os grandes grupos editoriais pagam esses espaços para que haja destaque aos seus livros. Aqui, a escolha é independente. As pessoas podem gostar, podem não gostar, mas o motivo de um livro estar exposto não é meramente um motivo mercantilista.

L: A escolha é ...

P: ... independente.

L: É uma boa frase para terminar.

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